quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Paciente 2208 - A primeira entrevista

- Olá, como você se sente?
Estou bem, e você?
- Estou bem, sou a doutora Angela e vim para entender você. Qual é o seu nome?
Faz tanto tempo que não uso um nome, quando você percebe o quanto algo é irrelevante, aos poucos vai se esquecendo dela.
- Como pode dizer que seu nome é irrelevante? Você não valoriza quem você é?
Um nome não traduz o que uma pessoa é, traduz apenas as primeiras cobranças da vida de uma pessoa.
- O que você quer dizer?
Angela. Com esse nome posso dizer que sua familia esperava que você se tornasse linda, bem comportada e que qualquer comportamento fora desse padrão seria visto como uma decepção. Note que mesmo antes de nascer já existiam expectativas, você até já era cobrada por coisas que não pode controlar.
- Abrir mão do próprio nome é uma forma de se livrar das cobranças?
Se você quer se livrar das cobranças tem que fazer mais do que isso. Só será capaz de livrar das cobranças quando perceber a importância real das coisas, ou estará sempre se cobrando.
- Então as pessoas não sabem dar valor ao que tem?
“Ao que tem?” Dra Angela, o que você acha que as pessoas realmente tem? Dinheiro? Fama? Status? Objetos raros?
- Se essas coisas não tem valor, o que tem?
Que valor tem algo que não é seu?
- Eu não posso mensurar o valor de algo que não é meu, isso depende de cada um.
Exato. Mas como você pode dizer que algo é seu?
- Algo é meu quando eu tenho liberdade para escolher o que fazer com ele.
Isso apenas comprova minhas palavras. Ninguém escolhe quando nasce, nem escolhe quando vai ficar doente e, na maioria das vezes, ninguém escolhe quando vai morrer, ou seja, ninguém é dono da própria vida.
- Então como eu devo chamá-lo quando for falar com você?
Essa é uma pergunta que não me cabe a mim responder.

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